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CONSTRUÇÕES, UTENSILIOS E COSTUMES
O que foi o início de Piratininga bem se pode imaginar: um conglomerado de casinhas de taipa de mão, cobertas de sapé. Não havia telhas, porque não havia oleiros nem olarias; e como poderia montar-se uma olaria sem que primeiro houvesse bois ou eqüinos para tirar a almanjarra, que faz girar os cilindros amassadores do barro? Só no dia 06 de março de 1575, diz a ata da Câmara, se apresentou Cristóvão Gonçalves, e “em presença de todos disse que ele se queria vir a morar nesta vila e se queria obrigar a fazer telha para se cobrirem as moradas desta vila, por ser coisa para enobrecimento dela e ser muito necessário, contanto que se obrigassem a lhe tomar toda a que ele fizer... e a dita telha era necessária por rezão desta vila estar coberta de palha e correr risco por rezão de fogo.” Na mingua de moeda, a telha seria paga “no dinheiro da terra, que seriam mantimentos (mantimento, na época, é sinônimo de mandioca.) e carnes e cera e couros e gado, bois e vacas e porcos, porquanto nesta vila não há outra fazenda.” Coberto de sapé era tudo o mais: a igreja, a cadeira, a casa do Conselho. Esta, em 1580, caiu, passando a Câmara a reunir-se na casa de um ou outro vereador. Só em 1585 é que esta em via de construção de nova casa. E a Câmara resolve, no dia 23 de abril, “que a casa nova que estava mandada fazer para casa do conselho fosse sobradada e servisse de Câmara... fosse sobradada de tabuado, em cima servisse de casa do Conselho e o de baixo servisse para cadeia desta vila.” Foi possível esta empresa porque já havia na vila o que antes não havia: um carpinteiro. Mas o que se fez não passou de um remendo, pois 4 de outubro de 1586 o carpinteiro entrega a obra, depois de ano e meio, tal como poude acabar. Era obrigado a tirar uma janela, o que não se atreveu a fazer “por não se fiar nas paredes.” Pedia que lhe descontassem isto no orçamento. E estas duas enfermas, cadeia e casa do Conselho, vão de mãos dadas, numa petição de miséria através dos anos; de queixa em queixa, de reclamação em reclamação, de censura em censura, sem que se dê remédio a tamanha ignomínia. Não havia grilhões, nem correntes, nem dinheiro para os comprar. A cadeia era o divertimento dos facínoras, porque entravam pela porta e saiam a rir pela janela. Só bem mais tarde é que se resolve fazer uma cadeia de “pedra e cal” – é a expressão do texto – como havia em São Vicente. Mas, depois de resolvido, viu-se que não era possível. Concordou-se em que ela se fizesse de taipa de pilão, de quatro palmos e meio de espessura. Grande progresso em Piratininga. Se não havia a principio telhas, é claro que não haveria tijolos. E aqui é preciso salientar que através do próprio século XVII as casas mais opulentas – se é Piratininga – são todas, todas, de taipa de pilão ou simplesmente barreadas. As olarias que se foram criando, mesmo nas melhores fazendas, dos nababos do tempo, trazem sempre a frase restritiva – “de telhas”. Mais estranho ainda: o leitor percorrerá os trinta volumes dos Inventários sem encontrar esta palavra – tijolo. Nos sete primeiros volumes das Atas da Câmara de São Paulo, só uma vez encontrei o tijolo, e este cozido, na ereção do pelourinho. E fica-se mesmo a perguntar: donde veio este tijolo? É em 1610, ata de 23 de maio. (Vol. II, pág. 268). Nunca se fala em ladrilho. Só muito tarde se mencionam, excepcionalmente, soalhos e forros, nem sempre em toda a casa, mas só em alguns compartimentos, costume, aliás, que, no interior, se perpetuou até ha pouco. Também no Norte, segundo o testemunho de Gilberto Freyre, as casas eram assim. Vidraças? Mas quem pensaria nesse luxo? Elas eram indiscretas... Atas e inventários não as mencionam jamais. As casas de luxo, onde já havia tecidos adamascados, tamboladeras de prata, berloques de ouro, espelhos de vestir, nos fins do século XVII, ainda eram apenas distintas das pobrezinhas, de taipa de mão e cobertas de sapé, pela expressão “com seus corredores e tacaniças.” Upa! É passar de longe! Eram avaliadas em cem mil reis! O preço de cem bois, de cem vacas, de cem cavalos, termo médio, o que quer dizer que guardadas as proporções, em linguagem moderna, valiam uns cincoenta contos. Eram casas para estadia momentânea, aos domingos e dias de festas. No mais do tempo, os seus donos estavam na roça, cuidando de suas lavouras, e as habitações rurais superavam as urbanas. “Próceres civitatis in agris morabantur”, diria Columella. O mobiliário é paupérrimo. Nas melhores casas apenas as cadeiras “de estado” e as “rasas”. Aqui ou ali, com o tempo, mencionam-se tapetes. Não há quadros pelas paredes senão no fim do século XVII. E estes são quadros pios, quadros de Roma. Só depois de aparecerem as pinturas “da terra.” Mencionam-se mesas dom pés – as nobre – “com as suas cadeias” ou “com suas missagras”, isto é visagras ou dobradiças; com seus lambeis ou sobremesas. Entre as baixelas da época,
são freqüentes as tamboladeras, expansão da forma tembladera, que está
desde logo a apontar para uma origem castelhana: tembladera, que o
dicionário da Academia define: “Vaso ancho de plata, oro o vidrio, de
figura redonda, com dos asas a los lados y un pequeño asiento. Las
hay de muchos tamaños, y se hacen regularmente de una hoja mui delgada,
que parece que tiembla.” Não pude descobrir-lhes a utilidade. O dicionário de Zerolo cita o exemplo de Ventura de la Veja: “Dale á Gerarda aquela tembladera de plata para que haga chocolate.” Se a palavra nos veio da Espanha, dali também nos teria vindo a aplicação, provavelmente. Não há chícaras, senão
rarissimamente. E as que há, já se vê, não teriam o uso que hoje
tem: não havia chá nem café, e a congonha que se tomou um dia, muito
mais tarde, servia-se em cuias, não em chícaras..................... |
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