AUGUST DE SAINT HILAIRE

Encontrei, no melhor estado possível, os passarinhos e insectos; mas duas malas de plantas se achavam inteiramente destruídas pelas larvas das traças.

Eram as que recolhera nas Minas novas, nas margens do rio de S. Francisco entre o Rio de Janeiro e o Rio Doce, nas montanhas de Tapanhoacanga e nos arredores de Ubá. O clima do Rio de Janeiro a que não estava habituado, o cheiro de camphora, enxofre, e essencia de terebenthina, continuamente respirado, e devo confessal-o o desgosto, experimentado vendo as perdas do meu herbario,  todas estas causas me alteraram sensivelmente a saude, tirando-me quasi inteiramente o alento.

O fastidioso trabalho a que me entregara com isto soffria, prolongando-me os aborrecimentos. Varios mezes passaram durante os quaes nada mais fiz senão enrolar passarinhos no algodão, lavar insectos com ether; salpicar plantas com camphora e procurar restos de flores numa poeira mais fina que a do rapé.

A extrema lerdeza dos operarios do Rio de Janeiro, contribuiu tambem para que perdesse muito tempo. Emfim, só ao cabo de 3 dias conseguiu descobrir o tropeiro que hoje me acompanha.

Partida do Rio de Janeiro

Conservei no Rio de Janeiro a casa que alugara á chegada, e o bom Snr. Ovide, acceitou nella morar em minha ausencia. Ali deixei quinze caixas cheias de plantas e perfeitamente acondicionadas, e vinte quatro outras cheias de passaros, mamiferos e insectos, das quaes 20 arrumadas de modo a poderem ser embarcadas quando eu quizer.

Parti a 29 de janeiro de 1822 acompanhado de meu novo arreieiro, de Laruotte, e dois Guaranys montados. Firmiano vae a pé.

Como partimos muito tarde, não pudemos fazer senão 2 leguas. O caminho que segui foi o mesmo que com os Snrs de Langsdorff, Antonio Ildefonso Gomes e o pobre Prégent, trilhara quando cheio de enthusiasmo, hoje extinto e esperanças de que percebi a inanidade, encetei minhas longas e penosas Viagens.

Depois de sahir da cidade passámos em frente a S. Christovam. O caminho é bello, bastante uniforme, embora aberto em terreno arenoso. A direita passa-se a pouca distancia da Bahia de que ás vezes se tem perspectivas; á esquerda divisa-se um valle, accidentado por colinas e cheio de chacaras, terrenos lavradios e pastos. Ao longe, alçam-se os cumes da Serra da Tijuca cujas encostas estão cobertas de matta virgem.

Nada no mundo, talvez, haja tão bello quanto os arredores do Rio de Janeiro. Durante o verão, é o céo, alli, de um azul escuro que no inverno se suavisa para o desmaiado dos nossos mais bellos dias de automno. Aqui, a vegetação nunca repousa, e em todos os mezes do anno, bosques e campos estão ornados de flores.

Florestas virgens, tão antigas quanto o mundo, ostentam sua magestade ás portas da capital brasileira a contrastarem com o trabalho humano.

As casas de campo, que se avistam em re­dor da cidade, não têm magnificencia alguma; pouco obedecem ás regras da arte, mas a originalidade da sua construção, contribue, para tornar a paisagem mais pittoresca.

Quem poderá pintar as bellezas ostenta­das pela bahia do Rio de Janeiro, esta bahia que, segundo o almirante Jacob, tem a capacidade de todos os  portos  europeus  juntos? Quem poderá descrever aquellas ilhas de for­mas tão diversas que de seu seio surgem, essa multidão de enseadas a desenhar-lhe os contornos, as montanhas tão pittorescas que a em­molduram, a vegetação tão variada que lhe embelleza as praias?!